sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Caverna, talentos, pérola e um caminho a seguir

      Mais uma madrugada onde os pensamentos me são férteis. Sempre foi assim. Me tomo de mim mesmo. Me entorpeço de enzimas neurais. Sinapses escuras, massa cinzenta, de luz enquanto lampejos.
      A bílis negra me cerca. Ainda sinto o frio do chão duro, o plano da queda. A cera morna das asas ainda sinto também. Tentei voar de novo, mas os saltos foram muito mais baixos. Sem asas não se voa. 
      Depois das quedas maiores que saltos, tive medo de pular. Por isso me escondi numa caverna com medo da realidade, apesar dela me cercar. Tenho preferido ficar nas sombras a olhar pra o sol. Na caverna posso esconder minhas coisas, não existe luz para eu ver minha palidez. A dureza do mundo lá fora onde as pessoas só são para si não faz sentido. 
      Na caverna as moedas só são para mim. Lá fora, pra o status, pra futilidades. Vendi tudo o que tinha sim. Mas nem sempre sei o valor da pérola que comprei. Mas aqui na caverna tá seguro, lá fora não sou ninguém. Aqui, pelo menos ouço o eco das minhas vozes.
      Aqui sei que falo enquanto durmo. Mas não lembro mais dos sonhos. Lembrá-los aqui na caverna me dói os olhos. Que sentido faz lá fora? Músicas coloridas vazias, forças que mandam eu ter, mesmo sem saber como, me mandam ser feliz. Ver colorido me dá cáries.
      Como posso ter talentos? Pra quê servem pérolas?
      Só me resta agarrar-me a um surto. Enfaixar minhas feridas, pôr óculos escuros e caminhar doendo mesmo, curando feridas dos outros com as minhas. Não vejo sentido nisso; mas já ouvi falar que mandaram lançar pães sobre águas, falar com esqueletos e também que mulas falavam. Vou blefar, é o que me resta.
      Com os pés rachados vou tentar andar. Pular no escuro. Só não peçam pra não gritar. Só me resta sair. Mesmo no canto escuro e desprotegido me resta um caminho de lobos famintos, e eles sentem o cheiro de sangue das feridas descobertas. O que me resta é ir assim mesmo.

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