terça-feira, 3 de abril de 2018

Carta a Carlos, um querido desconhecido.


Esta história é uma resposta a um rapaz que passou por algumas perdas e decepções. Faz parte da sessão "mentoria" do site Papo de Homem.
Entao, vamos lá!



Boa tarde Carlos.

Meu nome é Eduardo, tenho 35 anos e sou professor universitário.

Passei por algo que de certa forma é muito parecido com sua experiência.
Pra resumir, entre 2013 e 2015, após o fim do mestrado e desempregado, minha irmã foi diagnosticada com câncer (pela segunda vez), a esposa que eu tinha na época resolveu terminar o casamento e meu pai foi diagnosticado com câncer de próstata. Depois disso, ainda nesse ano de 2015 amarguei a priemira grande crise de depressão, pois os acontecimentos que falei foram o gatilho que desencadeou o processo depressivo. E pra piorar eu estava em outro estado, onde eu havia feito mestrado. Eu achava que nada de pior poderia acontecer.

No ano seguinte, eu consegui um emprego como professor universitário no estado onde nasci, mas não na cidade onde sempre morei. Foi muito bom estar perto da minha família, no entato eu acompanhei de perto parte do tratamento do meu pai contra o câncer que já era bastante avançado. Mesmo vendo minha irmã se recuperar da doença dela, nós já sabíamos que o processo do meu pai já estava bastante avançado, era só uma questão de tempo. Não foi fácil ver meu pai e minha única irmã mulher recebendo quimioterapia numa mesma sessão. Sim, as vezes ela o levava pra sessões de quimioterapia e os dois fizeram o tratamento juntos.

No entanto voltei pra o estado onde fui criado sabendo que o processo depressivo havia me preparado ṕra coisas piores que poderiam acontecer, e foi exatamente assim que aconteceu, meu pai faleceu em julho de 2016. Logo depois, minha mãe que acompanhou todo o processo de perto, após a perda de meu pai foi se enfraquecendo emocionalmente e fisicamente, vindo a falecer no ano seguinte, em agosto do ano passado.

Perder meus pais, em especial a minha mãe, que sempre foi meu principal referencial de ser humano foi como se eu tivesse perdido toda a minha famĺia, e agora sinto como se eu estivesse sozinho no mundo, como se agora sim eu estivesse sendo responsável pela minha vida, que todas as experiencias emocionais daqui pra frente terei que enfrentar sozinho.

Atualmente convivo com a depressão, me submeto a terapia, e acompanho minha irmã que mais uma vez conseguiu se recuperar do cancer, mas ainda sofre de suas sequelas. Ela continua sendo minha grande companhia e inspiração enquanto mulher e pessoa (sobre ela teríamos outra grande história pra contar).

O que posso dizer diante de tudo isso, e considerando sua experiencia, é a primeira coisa que você não pode é deixar de pedir ajuda, pedir ajuda aquelas pessoas que voce sabe que pode contar. Outra coisa (que eu aprendi da da forma maios difícil possivel), não ficar especulando o porquê de a mulher que estava ao seu lado ter decidido partir, isso só vai mascarar a verdadeira dor que está sentindo. Nunca esqueça dos seus valores e do caráter que você tem. E pra finalizar, você quando decidiu trabalhar com Uber fez uma excelente escolha; essa atitude de fazer o que aparecesse pra dar conta de suas necessidades finaceiras pode ser o começo da sua reestabilização emocional.

Concluindo, eu não poderia deixar dizer com base em minha experiência que, a vida e o nosso caráter é feito de nossas decepções, dos nossos traumas, das perdas que vamos tendo pelo caminho, bem como do que fazemos dessas experiencias. A grande esperança que devemos cultivar é à partir do caráter que temos, assim, mesmo que percamos tudo: amigos, família, emprego, esposa, nada disso vai colocar em questão seu valor.

Espero que esse textão tenha ajudado em alguma coisa.

Ps. Atualmente continuo como professor universitário e estou desenvolvendo um projeto sobre masculidades e depressão como estudos pro doutorado em antropologia (tomara que o projeto seja aceito!)

Um caloroso abraço!

Ps. Carlos é um nome fictício.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Mateus 1

A genealogia de Cristo e a gravidez de Maria










      Sempre foi tradição entre os judeus catalogar genealogias. Até hoje os judeus (que se reconhecem como tal) fazem desta forma e assim se localizam enquanto indivíduos pertencentes a este povo. O Cristo de Deus entrou na história e se permitiu ser localizado no mapa étnico dos judeus na tribo (secular) de Judá. Se permitiu ser envolvido de cultura humana. 
      O Senhor absoluto, que está além da existência  precisava  entrar na história e isso trouxe questões difíceis. E mais complicado do que explicar a concepção por um ente não humano, seria justificar um tipo de gravidez perante seu marido, com quem acabara de casar, além das duas famílias em questão: a dela mesma e de José.
      Mais uma vez, de forma marcante Deus entra na história. 
      José e Maria notavelmente entenderam a intervenção. Apesar de no início ter decidido abandoná-la secretamente, José não perdeu a cabeça. José foi um home notável, homem de verdade. Diferente de seu ancestral Davi que usou de seu poder para usufruir sexualmente de uma mulher alheia Mas as consequências mais desconsertantes ficariam com Maria. 
      Esta no entanto, até a aparição do anjo esteve em uma situação bastante embaraçosa para uma mulher em sua época. Recém casada, com uma gravidez que não proveio do marido. Uma mulher pobre e sem tradição familiar estava exposta a uma situação difícil por causa do Espírito Santo. Mas o anjo Gabriel interveio e deu sentido a todo aquele risco real.
      Dali pra frente a jovem Maria estava grávida de um paradoxo, dentro de si estava quem seria o filho de Deus, ela sabia disso. Mas o que fazer dali pra frente? Se gabar por carregar dentro de si o próprio Deus a faria sofrer risco de morte. Nem se orgulhar publicamente disso ela podia, o meio onde ela estava, o contexto e a realidade não propiciava isso.
      Eles continuavam suas vidas apesar de estarem grávidos do Senhor da história: trabalhavam, um cuidava do outro. Maria não fazia a dieta normal de mulheres grávidas, comia o que tinha, eles não receberam nenhum beneficio auxiliar do Estado de Israel, não havia nenhum auxílio gravidez para a mãe de Jesus. Não havia complementação salarial pra José dar conforto ao filho que ia nascer. Os dois só puderam contar com a saúde que Deus os deu e alimentação possível que o trabalho os dava.
      Mesmo assim eles trabalharam, viveram deslumbrados com a graça que Deus havia os dado.
      Mesmo assim eles não pediram garantias a Deus para uma boa gestação. Maria continuou a ser Maria e José a ser José. Não exigiram vantagens a Deus nem contrapartidas por isso.
     Jesus ao nascer portanto, teve tudo o que precisava para crescer bem até os 33 anos, um casal em que um cuidava da outra e uma cuidava do outro.











sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Caverna, talentos, pérola e um caminho a seguir

      Mais uma madrugada onde os pensamentos me são férteis. Sempre foi assim. Me tomo de mim mesmo. Me entorpeço de enzimas neurais. Sinapses escuras, massa cinzenta, de luz enquanto lampejos.
      A bílis negra me cerca. Ainda sinto o frio do chão duro, o plano da queda. A cera morna das asas ainda sinto também. Tentei voar de novo, mas os saltos foram muito mais baixos. Sem asas não se voa. 
      Depois das quedas maiores que saltos, tive medo de pular. Por isso me escondi numa caverna com medo da realidade, apesar dela me cercar. Tenho preferido ficar nas sombras a olhar pra o sol. Na caverna posso esconder minhas coisas, não existe luz para eu ver minha palidez. A dureza do mundo lá fora onde as pessoas só são para si não faz sentido. 
      Na caverna as moedas só são para mim. Lá fora, pra o status, pra futilidades. Vendi tudo o que tinha sim. Mas nem sempre sei o valor da pérola que comprei. Mas aqui na caverna tá seguro, lá fora não sou ninguém. Aqui, pelo menos ouço o eco das minhas vozes.
      Aqui sei que falo enquanto durmo. Mas não lembro mais dos sonhos. Lembrá-los aqui na caverna me dói os olhos. Que sentido faz lá fora? Músicas coloridas vazias, forças que mandam eu ter, mesmo sem saber como, me mandam ser feliz. Ver colorido me dá cáries.
      Como posso ter talentos? Pra quê servem pérolas?
      Só me resta agarrar-me a um surto. Enfaixar minhas feridas, pôr óculos escuros e caminhar doendo mesmo, curando feridas dos outros com as minhas. Não vejo sentido nisso; mas já ouvi falar que mandaram lançar pães sobre águas, falar com esqueletos e também que mulas falavam. Vou blefar, é o que me resta.
      Com os pés rachados vou tentar andar. Pular no escuro. Só não peçam pra não gritar. Só me resta sair. Mesmo no canto escuro e desprotegido me resta um caminho de lobos famintos, e eles sentem o cheiro de sangue das feridas descobertas. O que me resta é ir assim mesmo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A tez mineira



Voltei pra casa com tudo na cabeça: a delicada esfregada entre os pés diante do frio, as unhas em tom de nude, a tez cabocla, fresca e viçosa, os olhos pretos profundos, o aconchego da voz (não consigo lembrar de outra forma).
Toda beleza e timidez do seu sorriso.
Ainda que possivelmente efêmero, tudo isso ressignificou aqueles dias, até os de hoje.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A realização da amizade

https://www.youtube.com/watch?v=A1COzrACVhU




A amizade é a forma de amor mais despretensiosa e sem propósito. É a forma mais gratuita de amor, vai além do afeto e se aprofunda quando se olha junto pra mesma coisa, quando se espanta agradavelmente por o outro ou a outra ter as mesmas aspirações.
As lutas, as dores, as decepções da vida provam o quanto a ligação é recíproca e profunda. O apoio mútuo é natural e simples.
Diante da amizade não serve o status, basta estar vestido (sempre se está nú), ter uma cozinha e um punhado de feijão com farinha que o significado se desenvolve mais ainda.
A amizade não é simplesmente útil, é desnecessária e sem propósito, mas compõe a essência de um relacionamento profundo. É assim que ela acontece: simplesmente se está junto, simplesmente a distância dói não doendo, pois sempre se está perto.
Mais profundo ainda é quando tudo acontece tendo o passado como moldura. Missão na adolescência, as paqueras que nunca davam certo, a vida intensa na puberdade diante de Deus e dos demais amigos. O auxílio mesmo quando falta a si mesmo. Aquelas coisas que só se descobre depois de adulto e após a descoberta, um abraço sem palavras acontece.
A amizade é mesmo inútil e desnecessária. Pois se fosse do contrário, a sublime simplicidade de compartilhar de uma feijoada numa panela de barro em um quintal que não é nosso, um pirão de aipim num mirante caindo aos pedaços, a ajuda no transporte, quando se andava a pé, não faria o menor sentido. Coisas que a utilidade e a necessidade não faz, pois pediria algo em troca.
Na amizade nunca vai existir a dívida de favores, somente "dívida" de visitas em comum, de boas risadas, de um bom desabafo diante da dureza da vida. Isso eu tive e sei que sempre vou ter.
Sempre terei sua amizade, a casa de sua mãe e a mãe emprestada pra me aconselhar. Você sempre terá meus conselhos racionais e explicações complicadas (pretexto pra explicar depois e manter a conversa). Sempre teremos risadas boas, abraços fraternos e motivos pra rever nosso passado e retomar as forças pra começar de novo. Dessa vez sou eu que estou precisando. 
Confio em você. 
Amo você. E toda vez que lembro que você existe, agradeço a Deus por isso.
Que nossos filhos, esposas e amigos vejam, somos amigos.

A você, meu querido amigo/irmão, Leon!

Te adoro cara!

terça-feira, 7 de julho de 2015

Anestesia



Eu estava em casa, alisava a gata, fazia comida.
As alunas me ouviam, me arengavam quando me chegava a noite.
Eu cuidava dela quando chegava do trabalho.
A mim não dava muito valor, não via problemas.
Ela me incomodava com seus aperreios, deixava que os cães me dilascerassem.
Minha pele estava blindada de bronze, minha surdez me protegia.

Aos poucos, meus joelhos não mais se desdobravam.
Me acostumei em frente as telas, as incorporei.
As estacas cravadas em meus ouvidos escorregavam, ela não martelava mais, mas era quem mais sofria.
Ouvido e cérebro se tornaram uma coisa só:
gangrena e carcinoma.
Os vermes passeavam, não minhocas.

Contudo, nada doía. O espelho sempre me deixava belo.
Eu achava que só precisava de banho e oferecer moquecas.
O meu carinho a irritava. A ignorância me doía.
A vida se arrastava, o que mais amava se ia.
A dor em mim não doía.

De repente ela se foi. Só fiquei com a dor.
O carcinoma afetava meus nervos.
O que era pior, a dor ou anestesiamento?
Não, não consegui me ver. Deus me abandonara.
Tirou-me de mim e o que vivia.

Senti um corte do tamanho de um palmo em minha nuca.
Senhor, tu penetraste tuas mãos de fogo nos meus ombros
E arrancaste de uma só vez toda a pele das minhas costas!
De uma só vez arrancou-me o couro e os cabelos da minha cabeça.

Tu descarnaste-me na frente dos meus amigos.
Todos vêem a brancura dos meus ossos.
Meu sangue enxarcou o apartamento.
Nem sinto mais a dor. Não vejo mais esperança.
Mas tu, de longe me observa. Espera que as feridas cicatrizem.

Agora vejo carne cobrindo meus ossos, não vejo vermes.
Mesmo que ao me mover a pele sangre, ela se recupera.
Tu, desgraçadamente põe sal em meu corpo.
E quando eu reclamo, o Senhor mergulha-me no mar.
Não importa o quanto eu urre de dor.

Eu sei que o que me resta é a vida.
Pois o que eu mais temia o Senhor me fez sofrer.
E ao mais me aterrorizava, tu me confrntaste.
Só me sinto vivo porque tume deste a dor como vida.

Seja pra que lado eu me mova, minha carne racha e o sangue escorre.
Tu zombeteiramente me pôs de frente ao espelho, justamente eu que nunca me via, nunca quis me ver.
Sempre fui ébano, cabelos de lã, dentes de marfim.
Mãos de vó para a cozinha.
A alegria dos amigos, dos alunos, do mundo afora.

Mesmo assim, ainda insisto em me mover freneticamente pra não me olhar no espelho,
Ainda que os sulcos de carme me ardam.
Porque não escutei o aperreio?
Porque só me via pelas cascas?
Agora só me resta a visão subcutânea.

Eu só sei que a vida ainda me resta, pois a morte não vem.
Será que amanhã esterei mai ferido que hoje?
Vou conseguir olhar pro espelho que o Senhor me deu por tortura como salvação?
Os tonéis de sal me esperam, a cura vai ser dolorosa.


quarta-feira, 24 de junho de 2015




Qualquer toque me deixa todo doce.
É como se eu fosse todo derretido,
tido consistência mole, fluido e mexendo,
crendo que presença possa me satisfazer.
Perceber uma mão sobre a minha.
Amizade feminina,
menina que ri satisfeita com a amizade;
qualidade de mim saída vermelha de intensa,
pretensa por galanteios fraternos.
Fraternos mesmo!
Mesmo macho e fêmea.

Quando pequeno o feminino me cercava.
Por fora ele me ensinava a ser homem.
Por dentro que nem andrógeno,
Por causa do aconchego delas.
Me revesti com a sensibilidade delas.
Elas me ensinaram a ser homem:
sensível,
interno,
materno,
estranho,
terno,
eu quero...
tê-las ao meu lado
pra não sentir o fardo
da macheza chata, pesada,
que não deixa ver o belo da fêmea:
pés 33,
cabelos soltos,
sobrancelhas,
som de riso e tristeza,
mãos miúdas,
lábios,
manias, manhas não!

Feminina de amizade me encher,
porque é mais aconchegante
ante a dureza do mundo.